
De primeira, pode ser difícil entender como o som cool e despretensioso de uma banda como o Little Joy pode dar certo em um show ao vivo, com centenas ou milhares de fãs enlouquecidos, colados no palco, berrando a letra a plenos pulmões, mesmo quando a balada é a mais calma possível. No início desse ano, quando a banda encabeçada por Rodrigo Amarante (Los Hermanos), Fabrizio Moretti (The Strokes) e Binki Shapiro fez as primeiras apresentações no Brasil, a diferença era clara: no palco, o clima era um e, na plateia, outro.
Em fevereiro, o público não perdeu uma chance de entoar um coro louvando Rodrigo Amarante, o único brasileiro feijão-com-arroz de verdade do grupo. Por mais que o líder do Little Joy mostrasse uma pequena alegria por estar em casa de novo, os quase-gringos não chegaram nem perto de fazer um mosh ou de pedir as palmas da plateia. No palco, Amarante era o grande anfitrião, que agradecia toda hora, Fabrizio era o filho pródigo que nunca voltou pra casa e Binki… ah, Binki, não tinha notado você ali…
Seis meses depois, veja só: a banda cool fez um show realmente quente. Na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, o público era maior do que na apresentação anterior, no Circo Voador. Os músicos pareciam mais livres no palco, mais maduros, mostraram canções novas pela primeira vez, arriscaram de verdade. Até Binki Shapiro (tímida para eles, esnobe para elas) batia o pandeiro nos quadris com mais felicidade! Pela primeira vez, fazia sentido ouvir ao vivo o som meio hippie, meio tropical e nada brasileiro do grupo. Uma contradição em termos, mas uma mistura que faz um bem inexplicável (só a música explica).
Quando eu ouvi a música do Little Joy pela primeira vez, no ano passado, a única coisa que eu queria era largar tudo e passar um fim de semana em uma praia tranquila, deitado numa rede, bebendo capirinha, ouvindo música, descansando… É claro que eu não fiz isso (alguns artistas têm esse poder de te fazer sonhar assim), mas depois outras pessoas me disseram sentiram mais ou menos a mesma coisa depois de ouvir o disco.
A explicação é bem clara e está nas melodias relaxantes, despretensiosas e calmas da banda. Mesmo a canção mais animada do álbum Little Joy (o único lançado até agora, em 2008) tem esse jeitão um pouco tropical, mas sem cair no caos da lambada, um pouco hippie, mas sem voltar aos anos 1970. É simplesmente um som muito, muito cool. O Little Joy não te quer e não se importa com o que você pensa… certo?
Na caixinha do disco, dentro do seu iPod, ou nos primeiros shows da banda, essa era mesmo a impressão. Mas na segunda temporada de shows no Brasil, os músicos comprovaram seu status de pequenos popstars. E foi difícil não expirar o ar blasé. O público estava diante de uma banda diferente, mais extrovertida, mais divertida. Foi surpreendente ver Binki Shapiro tomando o microfone por um momento, como mestre de cerimônias: “Thank you for coming! Obrigado!”.

As primeiras notas e as primeiras batidas supercadenciadas de “No one’s better sake”, que abriu o show, já levaram a plateia àquela praia imaginária. Mas, dessa vez, não era tranquila e ninguém ficava deitado numa rede. Era uma festa de verdade. O clima havaiano também ficou longe dali quando o grupo tocou “The next time around”. Faça um exercício: ouça a versão da faixa em CD e depois imagine uma versão quase explosiva, ao vivo. É isso mesmo. Vale destacar que Binki Shapiro continua irresistível cantando as duas frases em português na canção.
Até as novas canções e covers funcionaram bem, com destaque para a versão de “Procissão”, de Gilberto Gil. A noite (curta, já que o repertório da banda é magro) acabou muito bem, no maior clima “Hey, Jude”, quando o grupo chamou ao palco Adam Green e o resto dos Dead Trees (a banda de abertura) pra cantar “Brand New Start”, o hit feel good do grupo. Em pouco mais de uma hora, o Little Joy deu uma festa pra mostrar que sabe ser cool, mas sem ser fingir que não faz questão de te agradar.

Setlist – Little Joy (Rio de Janeiro, 14/08/2009)
No One’s Better Sake
How To Hang a Warhol
Unattainable
Shoulder To Shoulder
All The Hours
Midnight Voyage (The Mamas and the Papas)
With Strangers
I Agree With Your Face
Sambabylon
The Next Time Around
Don’t Watch Me Dancing
Keep Me In Mind
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Evaporar
Procissão (Gilberto Gil)
Brand New Start






















